12.8.17

O naná esquecido



O naná esquecido

Quando pequeno, o irmão tinha um “naná”. Um cobertor de berço que ele carregava pra todo o canto desde que nasceu.

Tinha um tom encardido e um cheirinho azedo, mistura de sujeira, xixi, suor, suco de fruta, biscoito e outros nojinhos que compunham o aroma que o menino adorava sentir enquanto chupava o dedo e alisava as bordas puídas.

Lavar o naná era proibido. Nas poucas vezes que o fizeram escondido, o resultado era um furioso ataque de indignação diante da traição revelada através do perfume do sabão Minerva.

O jeito era dar banhos de sol e torcer para que o calor escaldante do interior paulista desse uma amortecida nos germes. 

Eram os anos 70 e, um dia, o pai anuncia uma ida pra longínqua cidade de Caraguatatuba. “Vamos ao mar!”

Mil preparativos para enfiar a família de cinco filhos na Caravan. Malas, despesa de supermercado pra vinte dias, boias, pranchas de isopor e 7 horas de estrada.

Chegam exaustos e na hora de dormir, bate o desespero: “Cadê o naná?” 

Reviram malas, carro, sofá e nada. Os pais se entreolham em pânico: “Esquecemos o naná!”

O menino chora com emoção e não tem colo, chazinho, sorvete, historinha e nem cantiga de ninar que o acalme. A choradeira acabou sendo controlada, mas nada do moleque dormir. Crise de abstinência das brabas.

Onze da noite, a mãe decide: “Vamos à cidade comprar outro naná!”

O pai resmunga: “A essa hora não vai ter nenhuma loja aberta”

A mãe ignora - era dessas: “Todo mundo pro carro. Vamos comprar um naná igualzinho.”

As filhas mais velhas dão risada. “Quem vai fazer xixi nele?”

A mãe manda ficarem quietas, enfia todo mundo na Caravan e toca pro centro de Caraguá.

O comércio estava todo fechado e o pai já ia quase retornando, quando a mãe pede pra parar o carro, desce e vai falar com um homem que caminhava pela na rua. Ele aponta pra outra pessoa, que indica outra e mais outra e essa corrente acaba na frente da casa do dono da loja de artigos de cama, mesa e banho.

A filha pré-adolescente afunda no banco do carro, envergonhadíssima de ver a mãe tocar a campainha da casa de um desconhecido, quase à meia-noite. 

Atende uma mulher de camisola. A mãe explica a situação e a mulher, solidária, entra pra chamar o marido, que aparece no portão de roupão, segurando um molho de chaves.

Ele caminha até a loja, abre as portas de aço, acende as luzes e a família invade em busca do novo naná.

É difícil substituir um grande amor. O menino testa cada opção como um somelier, sentindo textura, aroma, densidade e, o teste final, a alisadinha enquanto chupa o dedo.

Trinta cobertorzinhos depois, com o dedão já fininho e todo o estoque da loja vindo abaixo, o menino solta: “Pode ser esse!”

Festa na floresta! Lojista, esposa, guarda noturno, família e vizinhança se abraçam e comemoram: “Achamos um naná!”. 

A família volta pra casa em estado de graça. No caminho, o menino ainda ameaça um muxoxo de recaída. Mas a alegria era tão grande que ele se rende e entra no clima. 

A mãe respira aliviada.  A fila andou.  Missão familiar cumprida com louvor. Vamos pra próxima.


23.6.17

A xota na TV




A xota na TV

Lado A

O menino assiste TV. De repente, sua série preferida é interrompida por uma xoxota gigante, 42 polegadas, em close ginecológico.

Ele pula do sofá e sai gritando pela casa:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe e o irmão mais velho chegam rapidamente. O irmão é o primeiro a falar:

“Nossa, é mesmo! Tem uma xoxota na TV! Você tava vendo pornô, Fulaninho?”

“Eu não! Tava vendo uma série. De repente essa xoxota aí apareceu na frente da TV”.

A mãe faz expressão de brava:

“Se não foi o Fulaninho, foi você, Beltrano. Você tava vendo pornô?”

“Não, né. Tava estudando pro vestibular. Nossa, como será que isso aconteceu? Será que foi o vizinho?”

O pequeno olha pra tela intrigado:

“Olha, ela está deitada em cima de uma toalha cor de rosa. Epa, pera aí…Mãe! Você está enrolada na mesma toalha! ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

“Que absurdo! Claro que não! Como minha xoxota ia aparecer na TV?! Vocês ficam vendo putaria e querem por culpa em mim!”

O filho mais velho pega o controle remoto e desliga a TV, ao mesmo tempo em que dá o veredito final:

“Mãe, essa xoxota é sua.”

“Credo, mãe…que nojo!”, diz o filho menor, “Já pensou se estou com meus amigos?!”

A mãe sai da sala xingando enquanto se enrola melhor na toalha rosa.


Lado B

A mãe está deitada na cama, após uma sessão de depilação caseira.

Essa sessão tinha sido diferente. Eliselma, a depiladora, havia sugerido um novo modelito e a mãe, que nunca foi de inovação nessas partes, resolveu aceitar.

Eliselma tinha acabado de sair e a mãe ficou curiosa pra ver o resultado.

Não tinha espelho à mão, daí se lembrou que os filhos usam o celular pra tudo. Resolveu imitar. Pegou o celular, mirou, localizou e bateu a foto.

Na mesma hora ela escuta o filho menor berrar:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe entra em pânico! O celular pula da sua mão. Não sabe o que apertar pra desfazer.

Se enrola na toalha e corre pra sala. O que vê na tela a deixa em estado catatônico: sua xereca escancarada em Kodachrome Dolby Stereo 3D High Definition.

Não tem noção de como conseguiu o feito, mas tem certeza que aquela xoxota é sua.

Resolve manter a autoridade e pergunta com voz dura quem estava vendo pornô. 

O plano estava indo bem, mas tinha a toalha. A maldita toalha rosa. A mesma do xoxotão. 

O pequeno é esperto e logo liga o lé com o cré: “MÃE, ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

A mãe decide sair de campo, mas sai xingando.

Epílogo

À noite na hora da janta, as histórias se unem e tudo se esclarece diante do pai que cai na gargalhada.

A mãe ainda não entende esse negócio de emparelhar celular com TV. Mas aprende que em caso de intimidades deve antes desligar o wi-fi ou, melhor ainda, usar um espelho.

Naquela noite, acordou umas cinco vezes assustada com a sensação de estar sendo observada.

Naquela semana, teve que conviver com o pequeno berrando pela casa: “Atenção, atenção! Vazou um nude da mãe!” 

E, para o resto da vida, todas as vezes que alguém estava com dificuldade em conectar o celular na TV, escutava um dos filhos dizendo em voz alta:

“Chama a minha mãe que ela te ajuda”.



15.6.17

Largo da Batata






Largo da Batata

Conheci Rafael no busão. Gato. 

Eu tinha pouco mais que 20 anos, recém separada, com um filhote pequeno e trabalhando de babá.

Uma hora e meia de condução pra ir pro serviço. Duas horas pra voltar. 

Rafael era a parte mais legal do meu dia. Minha mão suava e meu coração disparava quando aqueles olhos verdes safados sorriam pra mim.

Casei com 18 anos, virgem. Conheci meu marido na igreja. 

Nossa grana era pouca, então mantive meu emprego de babá que pousava na casa dos patrões e folgava a cada 15 dias.

Demorou pouco pra descobrir que nos dias que eu estava no serviço, meu marido trepava com outra na nossa cama.

Arrumei outro serviço de ir e voltar todo dia, assim mesmo não deu certo com a gente.

Separamos. Mas o pastor disse que meu casamento era eterno. 

Tentei me manter fiel, mesmo depois da separação. 

Daí o busão me trouxe o Rafael. Gato.

Transamos pela primeira vez num quartinho de pensão no Largo da Batata.

Rafael era um tesão e com ele senti o que nunca senti com o Sérgio, meu ex-marido.

Uma noite, Rafael tirou a camisinha do pau sem me avisar e continuou metendo. Eu só percebi quando senti o gozo descer nas pernas.

Fiquei assustada, mas não entendia muito das coisas. Não disse nada e nunca mais peguei o mesmo ônibus.

No mês seguinte a menstruação não veio.

No outro também. Só no terceiro mês tive coragem de ir na farmácia comprar o teste.

Dois risquinhos

Positivo

Caralho

Disso tudo só me lembro do pânico. Como eu ia fazer? Já tinha um filho pequeno que dependia de mim. 

Minha patroa também estava grávida. Se soubesse da minha gravidez, certeza que ia me mandar embora.

Não contei pra ninguém e mantive o serviço. Tudo que ela não podia fazer por causa da gravidez, eu fazia. Erguer peso, carregar compra. A barriga dela crescia e ela exibia orgulhosa. A minha eu disfarçava com roupa larga.

Rezava pra Deus me ajudar a não ter que encarar o povo da Igreja. Como ia explicar que engravidei de um cara que me comia no Largo da Batata, comigo ainda casada na casa de Deus. 

Um dia tive muita contração. Foi a primeira vez que faltei do serviço.

No pronto-socorro me disseram que eu tava ganhando nenê. E me deram bronca porque não fiz pré-natal.

Maria Luiza nasceu com pouco mais de 5 meses de gravidez.

Minha bebezinha galeguinha viveu só uma semana na UTI. 

Quando a enfermeira me contou que ela não tinha vingado, chorei um choro fininho, que vem do fundo da alma e corta a carne que nem estilete.

Mesmo com toda culpa, com toda vergonha, eu jamais queria ter feito mal pra minha bebê. 

A patroa veio me ver e também chorou. Disse que foi por ter olhado só pra barriga dela e nunca ter visto a minha.

Continuei no emprego e aos poucos fui refazendo a vida. 

Às vezes penso que a Maria Luiza foi embora porque não quis nascer mulher nesse mundo.



5.12.16

Uma espírita a favor da legalização do aborto



Sou espírita de berço. Nasci numa numerosa e maravilhosa família de seguidores do Kardecismo e nunca, nem por um momento, pensei em ter outra religião. A filosofia espirita me satisfaz plenamente e tem um significado muito grande na minha vida.

Cresci fazendo culto no lar, frequentando evangelização em centro espírita, mocidade, participando de trabalhos de cura e mediúnicos. Aprendi ainda muito nova que o aborto deve ser proibido pois o espírito que está reencarnando se conecta ao embrião no momento da concepção. Abortar é negar ao espírito a chance de reencarnar. Não apenas aceitei essa máxima como, durante anos, a tive como cláusula pétrea no meu sistema de valores.

Me tornei mãe e procuro transmitir aos meus filhos essa doutrina que sempre me segurou nos piores perrengues da vida. Um dia, conversava com um dos meus filhos sobre o aborto e ele me disse que era a favor.

Aquilo me chocou. “Como assim a favor do assassinato de inocentes? Como assim tirar do espírito a chance de reencarnar?”

Meu filho argumentou: “Mãe, esse é um conceito religioso.”

“Sim, mas é um conceito que tenho absoluta certeza que é correto”, afirmei.

“Mãe, vivemos num estado laico. E você está defendendo uma lei que vale para todos os brasileiros baseada na sua religião. Você critica tanto a bancada evangélica, que faz leis baseadas em crenças religiosas…qual a diferença da postura deles e da sua?”

Engoli seco. Não tinha como argumentar. O moleque tinha razão. 

Confesso que fiquei chacoalhada com este argumento. Mas ainda assim segui pró-vida, procurando me informar melhor sobre os fatos, mas, dessa vez, procurando enxergar de uma perspectiva laica.

A ficha realmente caiu (demorou, mas caiu) quando me dei conta que, mesmo com a proibição, as mulheres continuam abortando. Isto é, a proibição não protege o feto. Os espíritos continuam não reencarnando. E coloca em risco as mães, principalmente as pobres que procuram bocas de porco para fazer o que o estado lhes nega.

A minha arrogância espírita me impediu enxergar que a proibição do aborto é como um tapa olho que me permite dormir sossegada achando que vivo num país que condena uma prática horrível, mas que na verdade fomenta uma outra, muito pior, que mata o bebê, coloca em risco a vida e a saúde da mãe e alimenta uma rede clandestina e inescrupulosa de aborteiros sem qualificação, higiene e compromisso com o bem estar dessas mulheres, jogando-as para o SUS resolver quando dá ruim.

Proibir faz bem pra minha consciência. Mas não faz nada bem para diminuir o aborto. 

Pelo contrário, as estatísticas dos países onde o aborto é legalizado mostram que o número de abortos diminuiu. Para citar os Estados Unidos, o Centers for Desease Control e Prevention tem dados oficiais que mostram uma redução de quase 50% no número de abortos de 1979 a 2012. Foram praticados 700 mil abortos os EUA em 2012. Em 2013 no Brasil foram praticados mais de um milhão de abortos, segundo dados do IBGE. Isto é, mesmo com a proibição e com uma população muito menor que a americana, abortamos mais. 

Me desculpem companheiros espíritas, mas estamos fazendo tudo errado. Queremos defender a vida, mas apoiamos uma lei que faz com que o número de óbitos seja maior! Com o risco de perdermos outra vida, que é a da mãe. 

Demorei para sair do armário quanto a esse tema, por entender que é ponto pacífico no meio espírita. Mas Kardec nos ensinou a só acreditarmos naquilo que passa pelo crivo da razão. E minha razão me impede de seguir contra a proibição. 

Mantenho-me contra o aborto. E jamais abortaria. Mas sou a favor da legalização. 

Porque não posso impor minhas crenças religiosas aos outros (isso é fundamento espírita), porque tenho que respeitar o livre arbítrio de cada um (outro fundamento espírita) e, principalmente, porque diante dos números, proibir é ingênuo. Ou hipócrita. 

Não consigo mais dormir tranquila sobre a montanha de fetos abortados que se avoluma diariamente debaixo do meu tapete enquanto finjo que vivo num país livre do aborto.


24.8.16

Caixa de Pandora



Caixa de Pandora

Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia.

Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos. 

Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão de arroz lavado podia ficar no escorredor e a bucha tinha que ser colocada embaixo do sabão, nunca em cima, para não derretê-lo. Não admitia desperdício. Foi ela quem me ensinou que pizza fria com café, logo cedo, é um dos melhores desjejuns do mundo. E que Cynar é um ótimo substituto quando você não tem grana para comprar Campari.

Era marrenta como um burro velho. Além da eterna desconfiança às viagens aéreas, que a fazia enfrentar estoicamente horas de ônibus quando queria ir a um local mais afastado, nunca se reunia conosco no Natal, porque “é uma data triste”. Quando tinha uma opinião, nem tortura, nem estatísticas, nem o muxoxo dos parentes a faziam mudar de ideia.

Deu aulas de português a vida toda em escolas estaduais. Era a norma culta ambulante. Falava e escrevia perfeitamente, com todos os pronomes, hifens, tremas e aspas. Um dia conversávamos sobre o livro recomendado pelo MEC para a Educação de Jovens e Adultos que valorizava a forma não culta de falar e que havia sido grande polêmica na época. Logo de início me posicionei contra: “Imagina! Como pode o Ministério da Educação questionar a norma culta, tia?!”. Pois não é que ela me diz que havia achado sen-sa-cio-nal! Que estava mais do que na hora do país valorizar o jeito do povo simples de falar e que as pessoas que falam o português padrão eram muito preconceituosas. Ainda tentei defender meu ponto de vista arrogante de redatora publicitária, mas ela foi incisiva: “Língua é cultura. E todo modo de falar de um povo tem que ser valorizado. Dei aula na zona rural durante anos e nunca disse para um aluno que falar “nóis vai” era errado. Quem sou eu pra dizer que meu jeito é melhor que o dele? Além disso, se eu falasse isso, perderia aquele aluno, pois ele não sabe falar de outra maneira. O pai, a mãe, os avós, todos falam assim. Primeiro, você tem que acolher e valorizar a fala da pessoa, para só depois, aos poucos, ir introduzindo outro jeito de falar e escrever.” Meus olhos foram arregalando enquanto ela continuava: “Quando adotei a leitura do livro 'Meu Pé de Laranja Lima' fui muito criticada, inclusive pelos colegas, justamente porque o livro traz frases escritas fora da norma culta. Mas eles queriam formar leitores dando José de Alencar logo de cara para as crianças!”

Soube que ela era júri da justiça criminal. Quando era convocada, passava horas e até dias à disposição do tribunal. “Tia, que saco!” E a caixinha de Pandora da Tia Lourdes continuava nos surpreendendo: “Não acho. É cansativo, mas faço com prazer. Alguém tem que olhar para que essas pessoas tenham um julgamento justo. A maioria dos que estão ali quer vê-los massacrados. Jogam esses rapazes na cadeia sem nem pensar no que isso significa. Eu tento sempre ver os dois lados e garantir que seja feita justiça e não vingança.”

Eterna moradora do centro de São Paulo e fumante inveterada, se indignava com as pioneiras leis anti-fumo da cidade: “Onde já se viu proibir o cigarro?! O mesmo direito que você tem de não gostar de fumaça, eu tenho de fazer fumaça".

Um infarto precoce agravado por uma doença pulmonar obstrutiva crônica limitaram muito sua vida, mas nem assim abriu mão de morar sozinha. Criou entre os zeladores, entregadores e guardadores de carro, uma rede de colaboradores que a ajudavam com sacolas e a apoiavam quando precisava parar para descansar, o que acontecia a cada poucos passos. Viveu os demais anos quase sem sair de casa, precisando dormir ligada à uma máquina que lhe bombava oxigênio.

Quando morreu, encontramos escondido pelo apartamento 17 pacotes de cigarro. Mesmo contrariando todas as ordens médicas e familiares, a danada continuou fazendo o que queria.

Tia Lourdes foi a tia Lourdes até morrer.


12.8.16

Dois pais



Dois pais. 

A filha de um deles tinha cinco anos e desenhava na mesa da copa. No calor tórrido do noroeste paulista, ela usava uma calcinha de crochê vermelho.

O filho do outro já era adulto e consertava o fogão da residência. Tinha tocado a campainha e perguntado se tinha fogão pra arrumar. Na boa fé das gentes do interior, ele foi colocado pra dentro e levado pra cozinha.

A menina não suspeitou quando o rapaz se aproximou por trás e pediu pra ver seus desenhos. Ficou feliz quando ele começou a elogiá-los. Só achou estranho quando, em meio aos elogios, sentiu os dedos dele entrarem por dentro da sua calcinha. 

Ele era tão simpático, mas aquilo era entranho. E, ao mesmo tempo que uma voz lhe dizia: “Isso não é nada, é só carinho", a outra incomodava: “O papai te faz carinho assim? Seus tios te fazem carinho assim?"

A menina resolveu afastar-se. Correu para o quarto da mãe, encolheu-se num canto e botou na boca o dedão que há anos não chupava.

Quando a empregada entrou pra guardar a roupa, olhou para a menina com olhos de ver. 

Minutos depois, a mãe correu pra vizinha e pediu pra usar o telefone. Ligou para o marido, tenente da polícia militar, e contou o que ouviu da empregada.

A radio patrulha chegou rápido e levou o moço algemado, diante do olhar curioso dos vizinhos e da molecada da rua.

O pai veio na sequência, pegou a menina e seguiu pra delegacia. Na sala do delegado, ele segurou-a no colo com carinho e ajudou-a a contar o que houve. Quando o delegado lhe perguntou onde o moço a tocou, a menina, envergonhada demais para falar, apenas olhou para baixo e apontou a virilha. O dedão não saía da boca.

O abuso ainda foi comentado por algumas semanas entre parentes, vizinhos e amigos, até que se perdeu na lembrança de quase todos. E a menina cresceu sem nunca saber o que houve com o reparador de fogão.

Quarenta anos depois, após o enterro do pai, ela caminha em direção ao carro quando a madrasta se aproxima.

“Tem uma coisa que seu pai me contou que não esqueço. É sobre o moço que abusou de você”

A filha se surpreende: apesar de nunca mais ter tocado no assunto, o pai não havia se esquecido. Ela escuta curiosa.

"Ele disse que na cadeia bateram muito no rapaz. Imagina! Em plena ditadura militar o cara faz uma coisa dessas com a filha de um tenente! Nunca iam deixar ele sair de lá vivo. Mas quando seu pai soube que estavam espancando o rapaz, ele correu para lá e pediu pra eles pararem.”

Os olhos da filha se enchem de lágrimas. A madrasta continua:

“Eu quis saber como ele conseguiu fazer aquilo, afinal o que o moço fez com você era imperdoável. Mas ele me disse que um crime não justifica outro. Seu pai era assim. E você acredita que, tempos depois, o pai do rapaz foi na sua casa agradecer seu pai por ter poupado a vida do filho dele. Olha que situação o encontro desses dois!”

A filha não consegue conter o choro. Abraça forte a madrasta que, sem saber, ajudou-a colocar um ponto final surpreendente numa história que há quarenta anos permanecia inacabada. 

Elas partem. Uma sem o pai, a outra sem o companheiro. Ambas com a certeza de que estavam se separando de um gigante.


Ilustração de Snezhana Soosh

27.5.16

"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso"



"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso"

Se você nunca entrou num site de filmes pornô amador, entre. Eu fortemente recomendo, especialmente se você tem filhos. Estes sites hoje são os principais responsáveis pela educação sexual das nossas crianças e adolescentes. Foi conhecendo esses sites que entendi a reação dos meninos do Piauí que, ao serem pegos após o estupro de uma garota, disseram que não haviam feito “nada de mais”. Eles estão certos. Pela educação recebida através desses sites, violar uma garota não é nada de mais. Pelo contrário, é gostoso, divertido e pura safadeza pegar meninas bêbadas na balada, arregaçar novinhas, expor garotas dormindo e todo um cardápio de abuso que vai além de qualquer imaginação. E não são só as imagens que chocam pela crueza e pela realidade com que a sexualidade é mostrada, cada vez mais distorcida. Os textos que descrevem os filmes são grotescos: “Pai meteu bebida na filha pra fuder gostoso”, “Acariciando a amiga bêbada”, “Comendo uma noiada por dez reais”, e por aí, tristemente, vai.

Desculpaê se estou sendo muito explícita, mas está na hora de pararmos com o nhém nhém nhém puritano e olharmos de frente para o que está acontecendo na vida dos nossos jovens e adolescentes. Enquanto ficamos discutindo se a escola tem ou não tem que ensinar sobre sexo, eles estão aprendendo na internet, desde a mais tenra idade, um sexo irreal, violento e distorcido.

Esses meninos e meninas são vítimas. Vítimas de uma sociedade que insiste em querer censurar professor, beijo gay e que agora quer dizer o que pode ou não pode dentro de sala de aula, mas não liga a mínima pro que está rolando no celular da molecada. Uma sociedade que acha graça que suas filhas e filhos dancem “Baile de Favela” e cantem bem alto o refrão “e os menor preparado pra foder com a xota dela” e que as minas vão “voltar com a xota ardendo”, mas que se escandaliza se uma pessoa transexual quer ser chamada de Pedro ou Lúcia.

Se queremos empoderar nossas meninas e criar meninos melhores, a educação sexual se faz urgente. Uma educação sexual que os faça refletir sobre o que veem na rede e que seja um contraponto para o sexo doente e distorcido que eles assistem nesses sites. Essa realidade pede pais atentos, abertos para falar de sexo e tirar dúvidas, mas também pede especialistas. Gente qualificada para conduzir esse debate de maneira técnica, desprovida de julgamentos morais e que conduza à uma reflexão saudável. E isso só é possível através dos educadores. Aliás, para muitos, o ambiente escolar será o único local onde terão acesso a uma conversa mais esclarecedora sobre sexualidade. Proibir a educação sexual nas escolas é manter operando a máquina de formação de homens que acham que estuprar mulheres não é “nada de mais”.

Está na hora de nos despirmos de pudores, de vergonha e olharmos para o problema de frente. Sem medo. 

Entre nos sites, pesquise, reflita. Se precisar de algum endereço, peça ao seu filho.



P.S: não entrei no mérito de proibir ou não o celular e etc, pois com a mobilidade, o que seu filho não vê no celular dele, ele vê no do amigo. Esquece a história de computador na sala onde todos têm acesso. Isso virou pré-história. O jogo agora é outro.

9.5.16

O dia das mães é uma merda!



O dia das mães é uma merda!

As tias contam que sua mãe, já falecida, havia sido uma menina “terrível”. Os causos que justificam tal adjetivo são muitos. Desde pequena, a mãe nunca gostou de usar roupas. A vó teve que costurar suspensórios nas suas calçolas para ela não conseguir arrancá-las e sair peladinha por aí.

Era briguenta como o cão. Uma vez, voltando da escola, ao ser perseguida por um bando de moleques, pegou um ramo de primavera que encontrou numa pilha de podas e foi pra cima deles, botando todos pra correr. 

Contam também que ela amava plantas. A ponto de transformar qualquer lata de Parquetina, óleo, banha, sabão, em vasinho de flor. Um dia, para provocá-la, o irmão mais velho destruiu todos os vasinhos. Irada, ela atirou-lhe uma chave, que naquele tempo eram imensas, e quebrou-lhe um dente.

Adorava brincar de trapezista e uma de suas brincadeiras preferidas era rodopiar no varal, até que um dia caiu e quebrou o coccyx. A filha se lembra dela ter-lhe confessado que sonhava em um dia fugir com o circo.

Crescida, era obrigada a namorar na frente de casa, debaixo do poste de luz. Pois a menina “terrível” estourava as lâmpadas com estilingue para poder beijar no escurinho, fora da supervisão dos pais e, pior, dos irmãos.

O pai queria que ela fizesse o normal, como todas as filhas. Mas ela se recusou. Queria ser enfermeira, para desgosto dele que, naquele tempo, achava que as enfermeiras eram putas de médico. Ela não deu bola, seguiu em frente, cursou o que quis, teve uma carreira linda e virou um dos maiores orgulhos do velho.

Um dos episódios mais engraçados, que entrou pro almanaque da família, foi no Dia das Mães. Durante toda a semana, as rádios tocaram sem parar uma música que dizia “o dia das mães é sagrado, é sagrado, é sagrado”. A música era repetida insistentemente e a homenagem emocionava mamães, que faziam coro cantarolando junto. No dia sagrado, com a parentada reunida na sala e as crianças razoavelmente engomadas, a menina pequenininha, vestida só de calçola e suspensório, pediu silêncio porque ia fazer uma apresentação. Quando todos se calaram ela se posicionou teatralmente como uma rainha do rádio e cantou no ritmo da canção: “O dia das mães éuma merda, é uma merda, é uma merda!”. Comoção geral, a vó tentou agarrá-la para clássica chinelada no bumbum, mas a menina gargalhando, disparou na direção da janela feito um corisco, deu uma ponta e desapareceu por horas nas profundezas do quintal. 

Depois de adulta, a mãe contava que fez aquilo porque não aguentava mais ouvir aquela música. E sorria, feliz. 

A filha se lembrou do episódio, diante do festival de cor de rosa, laços, gatinhos, frases edificantes, vídeos, “lindo!” e “obrigada, meninas”, das redes sociais e do whatsapp no Dia das Mães. E pela forma como reagiu a ele, acredita que não era só a personalidade da mãe que era terrível. Seus genes também. 

Desligou o celular, deu uma ponta pela janela e só reapareceu horas depois. Sorrindo, feliz.



12.4.16

Solo pobre



O aluno de 12 anos sente-se profundamente injustiçado pela reprimenda da professora e, diante da recusa dela em ouvi-lo, deixa escapar toda sua indignação: “Ah, vai se fuder, Fulana…não fui eu que fiz isso!”

O palavrão dispara a indignação da professora que começa a berrar. Seus gritos ecoam pela escola e são ouvidos até do segundo andar do prédio - punição número 1.

O garoto é mandado para a coordenação - punição número 2.

Lá, tenta se explicar em vão. Aparentemente, nessa escola, dizer um palavrão ao professor é o mais grave delito. Tão grave que lhe priva o direito de ser ouvido - punição número 3.

Ele é mantido na coordenação durante toda a aula e recreio - punição número 4.

Recebe uma advertência para levar para casa - punição número 5.

É encontrado tempos depois pelos colegas, sozinho num canto, chorando convulsivamente. As crianças se solidarizam com o amigo. Na vergonha. No excesso das punições. Na perda do intervalo. No berros da professora. No palavrão que podia ter escapado da boca de qualquer um deles.

Temem que ele seja suspenso. Querem fazer uma camiseta “Resiste Beltrano”. 

Mesmo com tanta aridez, a meninada ainda é capaz de fazer brotar algo lindo. Imagino o que seriam capazes se o terreno fosse fértil, generoso, acolhedor.

E quando olho pra esse solo pobre, empedernido que tem a pretensão de colher gente melhor, adubando com bronca, bilhete e berro, só uma expressão me vem à mente:

“Ah, vai se fuder.”




6.4.16

Chá de Revelação



“Amoras, fui convidada para um Chá de Revelação.”

“Chá de Revelação? Qué isso?”

“Tentem adivinhar?”

“Já sei…o garoto ou a garota convida a família: vó, vô, pai, mãe, tio, primos, babá, vizinhos. Senta todo mundo na sala e, de repente, sai de dentro do armário. Revela que é gay. E as pessoas tem que levar presentes pra montar o novo guarda-roupa.”

“Ai, eu já pensei outra coisa…você convida família, amigos, galera, senta todo mundo em círculo e serve um chá tipo lírio, sei lá, desses de erva que abre a mente, sabe? Daí o chá vai circulando enquanto as pessoas compartilham suas revelações.”

“Não, gente. É uma piração beeem maior.”

“Maior? Então só pode ser reunir todo mundo pra tomar o chá revelador e, quando tá todo mundo locão, o fulano ou a fulana pula de dentro do armário.”

“Não, pior ainda. Chá de Revelação é convidar os parentes e amigos pra revelar o sexo do bebê depois do ultrassom.”

“Sério! Existe isso?! Que bizarro!”

“Menina, as pessoas hoje em dia têm cada ideia, não?! Quem ia pensar uma coisa dessas? Sexo de bebê agora é evento?”

“Como será? Tem tipo gelo seco e datashow com slides do pintoco ou do capozinho de Fusca aparecendo no ultrassom?”

“Sei lá, nunca fui em um! Mas não perco por nada!”

“É, tem que conferir. Mente criativa dessa turma, não?”

“Demais. E a gente achando que já viu de tudo…passa o chá, por favor. É camomila? Tem de lírio, não?”