12.8.17

O naná esquecido



O naná esquecido

Quando pequeno, o irmão tinha um “naná”. Um cobertor de berço que ele carregava pra todo o canto desde que nasceu.

Tinha um tom encardido e um cheirinho azedo, mistura de sujeira, xixi, suor, suco de fruta, biscoito e outros nojinhos que compunham o aroma que o menino adorava sentir enquanto chupava o dedo e alisava as bordas puídas.

Lavar o naná era proibido. Nas poucas vezes que o fizeram escondido, o resultado era um furioso ataque de indignação diante da traição revelada através do perfume do sabão Minerva.

O jeito era dar banhos de sol e torcer para que o calor escaldante do interior paulista desse uma amortecida nos germes. 

Eram os anos 70 e, um dia, o pai anuncia uma ida pra longínqua cidade de Caraguatatuba. “Vamos ao mar!”

Mil preparativos para enfiar a família de cinco filhos na Caravan. Malas, despesa de supermercado pra vinte dias, boias, pranchas de isopor e 7 horas de estrada.

Chegam exaustos e na hora de dormir, bate o desespero: “Cadê o naná?” 

Reviram malas, carro, sofá e nada. Os pais se entreolham em pânico: “Esquecemos o naná!”

O menino chora com emoção e não tem colo, chazinho, sorvete, historinha e nem cantiga de ninar que o acalme. A choradeira acabou sendo controlada, mas nada do moleque dormir. Crise de abstinência das brabas.

Onze da noite, a mãe decide: “Vamos à cidade comprar outro naná!”

O pai resmunga: “A essa hora não vai ter nenhuma loja aberta”

A mãe ignora - era dessas: “Todo mundo pro carro. Vamos comprar um naná igualzinho.”

As filhas mais velhas dão risada. “Quem vai fazer xixi nele?”

A mãe manda ficarem quietas, enfia todo mundo na Caravan e toca pro centro de Caraguá.

O comércio estava todo fechado e o pai já ia quase retornando, quando a mãe pede pra parar o carro, desce e vai falar com um homem que caminhava pela na rua. Ele aponta pra outra pessoa, que indica outra e mais outra e essa corrente acaba na frente da casa do dono da loja de artigos de cama, mesa e banho.

A filha pré-adolescente afunda no banco do carro, envergonhadíssima de ver a mãe tocar a campainha da casa de um desconhecido, quase à meia-noite. 

Atende uma mulher de camisola. A mãe explica a situação e a mulher, solidária, entra pra chamar o marido, que aparece no portão de roupão, segurando um molho de chaves.

Ele caminha até a loja, abre as portas de aço, acende as luzes e a família invade em busca do novo naná.

É difícil substituir um grande amor. O menino testa cada opção como um somelier, sentindo textura, aroma, densidade e, o teste final, a alisadinha enquanto chupa o dedo.

Trinta cobertorzinhos depois, com o dedão já fininho e todo o estoque da loja vindo abaixo, o menino solta: “Pode ser esse!”

Festa na floresta! Lojista, esposa, guarda noturno, família e vizinhança se abraçam e comemoram: “Achamos um naná!”. 

A família volta pra casa em estado de graça. No caminho, o menino ainda ameaça um muxoxo de recaída. Mas a alegria era tão grande que ele se rende e entra no clima. 

A mãe respira aliviada.  A fila andou.  Missão familiar cumprida com louvor. Vamos pra próxima.


23.6.17

A xota na TV




A xota na TV

Lado A

O menino assiste TV. De repente, sua série preferida é interrompida por uma xoxota gigante, 42 polegadas, em close ginecológico.

Ele pula do sofá e sai gritando pela casa:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe e o irmão mais velho chegam rapidamente. O irmão é o primeiro a falar:

“Nossa, é mesmo! Tem uma xoxota na TV! Você tava vendo pornô, Fulaninho?”

“Eu não! Tava vendo uma série. De repente essa xoxota aí apareceu na frente da TV”.

A mãe faz expressão de brava:

“Se não foi o Fulaninho, foi você, Beltrano. Você tava vendo pornô?”

“Não, né. Tava estudando pro vestibular. Nossa, como será que isso aconteceu? Será que foi o vizinho?”

O pequeno olha pra tela intrigado:

“Olha, ela está deitada em cima de uma toalha cor de rosa. Epa, pera aí…Mãe! Você está enrolada na mesma toalha! ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

“Que absurdo! Claro que não! Como minha xoxota ia aparecer na TV?! Vocês ficam vendo putaria e querem por culpa em mim!”

O filho mais velho pega o controle remoto e desliga a TV, ao mesmo tempo em que dá o veredito final:

“Mãe, essa xoxota é sua.”

“Credo, mãe…que nojo!”, diz o filho menor, “Já pensou se estou com meus amigos?!”

A mãe sai da sala xingando enquanto se enrola melhor na toalha rosa.


Lado B

A mãe está deitada na cama, após uma sessão de depilação caseira.

Essa sessão tinha sido diferente. Eliselma, a depiladora, havia sugerido um novo modelito e a mãe, que nunca foi de inovação nessas partes, resolveu aceitar.

Eliselma tinha acabado de sair e a mãe ficou curiosa pra ver o resultado.

Não tinha espelho à mão, daí se lembrou que os filhos usam o celular pra tudo. Resolveu imitar. Pegou o celular, mirou, localizou e bateu a foto.

Na mesma hora ela escuta o filho menor berrar:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe entra em pânico! O celular pula da sua mão. Não sabe o que apertar pra desfazer.

Se enrola na toalha e corre pra sala. O que vê na tela a deixa em estado catatônico: sua xereca escancarada em Kodachrome Dolby Stereo 3D High Definition.

Não tem noção de como conseguiu o feito, mas tem certeza que aquela xoxota é sua.

Resolve manter a autoridade e pergunta com voz dura quem estava vendo pornô. 

O plano estava indo bem, mas tinha a toalha. A maldita toalha rosa. A mesma do xoxotão. 

O pequeno é esperto e logo liga o lé com o cré: “MÃE, ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

A mãe decide sair de campo, mas sai xingando.

Epílogo

À noite na hora da janta, as histórias se unem e tudo se esclarece diante do pai que cai na gargalhada.

A mãe ainda não entende esse negócio de emparelhar celular com TV. Mas aprende que em caso de intimidades deve antes desligar o wi-fi ou, melhor ainda, usar um espelho.

Naquela noite, acordou umas cinco vezes assustada com a sensação de estar sendo observada.

Naquela semana, teve que conviver com o pequeno berrando pela casa: “Atenção, atenção! Vazou um nude da mãe!” 

E, para o resto da vida, todas as vezes que alguém estava com dificuldade em conectar o celular na TV, escutava um dos filhos dizendo em voz alta:

“Chama a minha mãe que ela te ajuda”.



15.6.17

Largo da Batata






Largo da Batata

Conheci Rafael no busão. Gato. 

Eu tinha pouco mais que 20 anos, recém separada, com um filhote pequeno e trabalhando de babá.

Uma hora e meia de condução pra ir pro serviço. Duas horas pra voltar. 

Rafael era a parte mais legal do meu dia. Minha mão suava e meu coração disparava quando aqueles olhos verdes safados sorriam pra mim.

Casei com 18 anos, virgem. Conheci meu marido na igreja. 

Nossa grana era pouca, então mantive meu emprego de babá que pousava na casa dos patrões e folgava a cada 15 dias.

Demorou pouco pra descobrir que nos dias que eu estava no serviço, meu marido trepava com outra na nossa cama.

Arrumei outro serviço de ir e voltar todo dia, assim mesmo não deu certo com a gente.

Separamos. Mas o pastor disse que meu casamento era eterno. 

Tentei me manter fiel, mesmo depois da separação. 

Daí o busão me trouxe o Rafael. Gato.

Transamos pela primeira vez num quartinho de pensão no Largo da Batata.

Rafael era um tesão e com ele senti o que nunca senti com o Sérgio, meu ex-marido.

Uma noite, Rafael tirou a camisinha do pau sem me avisar e continuou metendo. Eu só percebi quando senti o gozo descer nas pernas.

Fiquei assustada, mas não entendia muito das coisas. Não disse nada e nunca mais peguei o mesmo ônibus.

No mês seguinte a menstruação não veio.

No outro também. Só no terceiro mês tive coragem de ir na farmácia comprar o teste.

Dois risquinhos

Positivo

Caralho

Disso tudo só me lembro do pânico. Como eu ia fazer? Já tinha um filho pequeno que dependia de mim. 

Minha patroa também estava grávida. Se soubesse da minha gravidez, certeza que ia me mandar embora.

Não contei pra ninguém e mantive o serviço. Tudo que ela não podia fazer por causa da gravidez, eu fazia. Erguer peso, carregar compra. A barriga dela crescia e ela exibia orgulhosa. A minha eu disfarçava com roupa larga.

Rezava pra Deus me ajudar a não ter que encarar o povo da Igreja. Como ia explicar que engravidei de um cara que me comia no Largo da Batata, comigo ainda casada na casa de Deus. 

Um dia tive muita contração. Foi a primeira vez que faltei do serviço.

No pronto-socorro me disseram que eu tava ganhando nenê. E me deram bronca porque não fiz pré-natal.

Maria Luiza nasceu com pouco mais de 5 meses de gravidez.

Minha bebezinha galeguinha viveu só uma semana na UTI. 

Quando a enfermeira me contou que ela não tinha vingado, chorei um choro fininho, que vem do fundo da alma e corta a carne que nem estilete.

Mesmo com toda culpa, com toda vergonha, eu jamais queria ter feito mal pra minha bebê. 

A patroa veio me ver e também chorou. Disse que foi por ter olhado só pra barriga dela e nunca ter visto a minha.

Continuei no emprego e aos poucos fui refazendo a vida. 

Às vezes penso que a Maria Luiza foi embora porque não quis nascer mulher nesse mundo.