31.8.17

Faltam culhões



Faltam culhões

Aurora, a bionda, é uma calabresa baixinha, de pele bronzeada que contrasta com o forte descolorido dos cabelos. Adora usar vestidos curtos, saias rendadas e sapatos de salto bem alto, que a fazem caminhar com uma certa dificuldade pelas ruas de pedra do centro histórico de Spoleto, na Itália central.

É minha vizinha de porta e toda as vezes que nos encontramos, deixa claro como sente falta do sul do país. É raivosamente infeliz aqui. Não gosta do povo que acha frio e esnobe, e diz isso empinando o nariz e alisando-o de baixo para cima com o indicador. Também não gosta do pão, do clima e sente falta dos peixes comprados diretamente dos pescadores que aportam nas praias de sua Catanzaro.

Convidou-me para um café. Mostrou-me fotos da família e do marido falecido há seis anos. Era um homem belo. Acende um cigarro para contar que foi um câncer de pulmão que o levou tão cedo. Depois dele, nunca mais teve outro homem: “Sou fiel!”. 

Com a morte do pai, os filhos a trouxeram para perto. Alugaram um apartamento em Spoleto onde ela vive na companhia do filho solteiro de 28 anos. Sente-se prisioneira nessa cidade de muros e palácios, mas não volta pra Calábria porque não pode abandonar o caçula. 

Fomos juntas à piscina municipal. O dia seguia preguiçoso e quente, quando, no guarda-sol ao lado, instala-se um homem bonitão, ainda jovem, já de cabelos grisalhos.

Aurora me cutuca enquanto faz um gesto sutil na direção do nosso vizinho: “Não gosto dos homens daqui. Não são viris. No Sul, os homens são viris. Capisce viris? Eles gostam das mulheres.” E faz um gesto com os braços que interpretei como sendo “os calabreses tem a maior pegada”. 

Aurora continua: “Os homens no Sul são gentis, nos protegem. Quando você chega na estação com a mala, nem precisa pedir e eles vem correndo te ajudar a descer do trem e carregá-la." E fico imaginando quem não ajudaria aquela figura pequenina, desequilibrada nos saltos, carregando uma bruta mala. Aurora continua: “Aqui, nem pensar! Se bobear, te empurram pra você sair da frente. Não, não…não gosto dos homens daqui. No sul eles são mais masculinos, são mais…homens!”.

Aurora me pede para descrever os homens no Brasil. Depois de conduzir a conversa e se certificar que também temos nossa cota de homens gentis e viris, ela faz um pequeno sinal por baixo dos óculos escuros para eu olhar para o nosso vizinho e sussurra: ”Olha os culhões.”

Eu discretamente passo um scan nos países baixos do rapaz. Antes que eu pudesse dar qualquer opinão, Aurora me cala com sua risada e ares de especialista: “Os homens daqui não tem culhões!”. E faz um gesto no ar como segurasse uma bola de tênis com a palma da mão virada pra cima. “Capisce culhões?”

Capisco, ô se capisco. E capisco que tenho que ir logo conhecer esse tal de Sul.



12.8.17

O naná esquecido



O naná esquecido

Quando pequeno, o irmão tinha um “naná”. Um cobertor de berço que ele carregava pra todo o canto desde que nasceu.

Tinha um tom encardido e um cheirinho azedo, mistura de sujeira, xixi, suor, suco de fruta, biscoito e outros nojinhos que compunham o aroma que o menino adorava sentir enquanto chupava o dedo e alisava as bordas puídas.

Lavar o naná era proibido. Nas poucas vezes que o fizeram escondido, o resultado era um furioso ataque de indignação diante da traição revelada através do perfume do sabão Minerva.

O jeito era dar banhos de sol e torcer para que o calor escaldante do interior paulista desse uma amortecida nos germes. 

Eram os anos 70 e, um dia, o pai anuncia uma ida pra longínqua cidade de Caraguatatuba. “Vamos ao mar!”

Mil preparativos para enfiar a família de cinco filhos na Caravan. Malas, despesa de supermercado pra vinte dias, boias, pranchas de isopor e 7 horas de estrada.

Chegam exaustos e na hora de dormir, bate o desespero: “Cadê o naná?” 

Reviram malas, carro, sofá e nada. Os pais se entreolham em pânico: “Esquecemos o naná!”

O menino chora com emoção e não tem colo, chazinho, sorvete, historinha e nem cantiga de ninar que o acalme. A choradeira acabou sendo controlada, mas nada do moleque dormir. Crise de abstinência das brabas.

Onze da noite, a mãe decide: “Vamos à cidade comprar outro naná!”

O pai resmunga: “A essa hora não vai ter nenhuma loja aberta”

A mãe ignora - era dessas: “Todo mundo pro carro. Vamos comprar um naná igualzinho.”

As filhas mais velhas dão risada. “Quem vai fazer xixi nele?”

A mãe manda ficarem quietas, enfia todo mundo na Caravan e toca pro centro de Caraguá.

O comércio estava todo fechado e o pai já ia quase retornando, quando a mãe pede pra parar o carro, desce e vai falar com um homem que caminhava pela na rua. Ele aponta pra outra pessoa, que indica outra e mais outra e essa corrente acaba na frente da casa do dono da loja de artigos de cama, mesa e banho.

A filha pré-adolescente afunda no banco do carro, envergonhadíssima de ver a mãe tocar a campainha da casa de um desconhecido, quase à meia-noite. 

Atende uma mulher de camisola. A mãe explica a situação e a mulher, solidária, entra pra chamar o marido, que aparece no portão de roupão, segurando um molho de chaves.

Ele caminha até a loja, abre as portas de aço, acende as luzes e a família invade em busca do novo naná.

É difícil substituir um grande amor. O menino testa cada opção como um somelier, sentindo textura, aroma, densidade e, o teste final, a alisadinha enquanto chupa o dedo.

Trinta cobertorzinhos depois, com o dedão já fininho e todo o estoque da loja vindo abaixo, o menino solta: “Pode ser esse!”

Festa na floresta! Lojista, esposa, guarda noturno, família e vizinhança se abraçam e comemoram: “Achamos um naná!”. 

A família volta pra casa em estado de graça. No caminho, o menino ainda ameaça um muxoxo de recaída. Mas a alegria era tão grande que ele se rende e entra no clima. 

A mãe respira aliviada.  A fila andou.  Missão familiar cumprida com louvor. Vamos pra próxima.